Primeiras linhas #2

Há mais de um ano fiz um post compartilhando alguns começos de livros legais com os quais tinha me deparado. Mais do que na hora de fazer outro, não?

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” – Vais encontrar o mundo – disse-me meu pai, à porta do Ateneu. – Coragem para a luta”.

O Ateneu – Raul Pompeia (Editora Zahar). Fiz vídeo sobre ele aqui

“Agora vamos deixar você feia, minha mãe disse. E assobiou. Sua boca estava tão próxima que ela cuspiu perdigotos em meu pescoço. Senti cheiro de cerveja. No espelho, eu a vi passar o pedaço de carvão no meu rosto. É uma vida sórdida, murmurou”.

Reze pelas mulheres roubadas – Jennifer Clement (Rocco)

“No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho muitos anos antes da morte dela, de Emilia. Digamos que ela se chama ou se chamava Emilia e que ele se chama, se chamava e continua se chamando Julio. Julio e Emilia. No final, Emilia morre e Julio não morre. O resto é literatura:”.

Bonsai – Alejandro Zambra (Cosac Naify) 

“Caro Soares, fico satisfeita de que já tenha recebido todo o dinheiro. Em anexo, estão a sua passagem para Barcelona e a minha fotografia. Abaixo, o endereço do hotel onde ficarei hospedada. Mate-me quando quiser, ou melhor, no dia que lhe convier dentro dos próximos quatro meses. A única coisa que peço é descrição. Você sabe quem sou, mas não quero saber quem você é”.

Mate-me quando quiser – Anita Deak (Gutenberg). Fiz vídeo sobre esse livro aqui

“Ela foi a primeira a chegar aonde o vento parecia não soprar mais. A vários quilômetros da cidade as árvores se emaranhavam umas nas outras. Os galhos cresciam rumo ao chão, enterrando as filhas no solo para cegá-las de modo que o sol, com seus raios, não lhes prometesse amanhã. Era apenas a trilha que relutava em cobrir completamente sua superfície com a relva, como se antecipasse que em breve sua fome do calor dos pés descalços que lhe davam vida iria terminar”.

O Brilho do Amanhã – Ishmael Beah (Companhia das Letras) 

Entrevista: editora Carambaia

 A editora Carambaia, fundada em 2015, tem como proposta trazer livros importantes da literatura que não estão mais em catálogo no país, sempre com um projeto gráfico exclusivo. Tive oportunidade de entrevistar o Fabiano Curi e a Graziella Beting, editores e fundadores da editora.
Editores da Carambaia: Fabiano Curi e Graziella Beting.

Editores da Carambaia: Fabiano Curi e Graziella Beting.

– Cada livro da editora tem um projeto gráfico diferente. Por quê?
Porque trabalhamos com autores diferentes, de línguas diferentes e de períodos diferentes. Queremos que o projeto gráfico não seja apenas uma embalagem para a história, mas que tenha uma relação intrínseca com a obra. Assim, convidamos diferentes artistas gráficos para que eles pensem em suas versões para os livros com base nas leituras que fizeram. Em muitos casos, participam de reuniões os editores, os tradutores, os artistas gráficos e produtora gráfica para que todos contribuam com o desenvolvimento do trabalho.
– Como vocês acreditam que o projeto gráfico de um livro interfere na leitura de um livro?
O projeto gráfico não é apenas capa e tipografia, mas um estudo que precisa estar de acordo com o contexto da obra. Se é apenas para se preocupar com o texto, podemos colocar tudo no digital. O projeto gráfico tem como norte o conforto do leitor, o tipo de papel, o peso do livro, a durabilidade da capa e elementos que esteticamente trarão uma uma beleza singular para a experiência da leitura

– Qual o conceito usado para essa edição?
Como em todos os nossos livros, a concepção do projeto nasce de discussões conjuntas entre editores, tradutores, ensaístas e artistas gráficos. No caso desse livro de Grazia Deledda, queríamos que o objeto final, o livro, traduzisse as características que nos parecem importantes em sua obra: uma mistura de força e leveza, de profundidade e sutileza.

– É curioso como ao mesmo tempo que usam uma referência mais tradicional de artesanato com juncos o resultado final ficou minimalista e moderno. Como chegaram nesse estilo?
Nossa ideia foi justamente a de dar uma feição moderna, atual, para o òrriu, esse artesanato típico sardo. De certa forma, isso simboliza o fato de estarmos publicando uma obra do início do século XX nos dias de hoje. Estamos trazendo o cotidiano de um pequeno vilarejo da Sardenha dos anos 1900 numa edição contemporânea, no século XXI.
– Qual a ideia por trás da repetição do padrão da capa no começo do livro?
Essa foi uma decisão dos artistas gráficos, mas imagino que ela apresenta, desde o início do livro, esse contraste, em negativo, da trama representada na capa.
– Como foi a escolha editorial desse livro? Qual a importância desse livro e da autora para a literatura e para o catálogo da editora?
Grazia Deledda foi uma autora muito importante na Itália do começo do século, teve visibilidade internacional quando ganhou o Nobel – foi a primeira italiana e a segunda mulher a conquistar o prêmio -, mas estava fora de catálogo no Brasil há muitos anos. O objetivo da editora é justamente esse, de publicar obras relevantes da literatura que, por diversos motivos, não estão acessíveis ao leitor brasileiro hoje.
No vídeo, falo sobre “Juncos ao Vento”, de Grazia Deledda, um dos primeiros livros publicados pela editora.

The first bad man

No começo de fevereiro li o livro “The first bad man”, da Miranda July. Peguei o livro para ler sem saber quase nada – tudo que sabia era que esse é o primeiro romance da autora/artista/cineasta. A verdade é que o livro me surpreendeu – positiva e negativamente. E, quase uma semana depois de ter terminado, ainda não sei se gosto dele ou não. Por isso, resolvi escrever alguns pensamentos (um tanto desconexos) que tive sobre ele.

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Ele é estranho. E não pelo estilo de escrita (o livro é gostoso de ler), mas pelos personagens e pela história mesmo.

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No livro de contos dela, o No one belongs here more than you, a autora apresenta personagens estranhos mas adoráveis. Ao contrário, os personagens do romance me parecem muito mais estranhos do que adoráveis. Várias relações que acontecem entre eles no início do livro não são bem explicadas e não parecem verossímeis nem mesmo no mundo de pessoas loucas da Miranda July.

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A personagem principal é Cheryl Glickman, uma mulher de meia idade que mora sozinha e tem uma vida bastante certinha (certinha do jeito July de ser, claro. E essa é uma parte que adoro). Por exemplo: para manter a cozinha limpa e arrumada, Cheryl usa apenas um jogo de louça, que se obriga a lavar assim que usado para ter com o que comer na próxima refeição. Uma personagem típica de July.

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As coisas começam a mudar na vida de Cheryl por causa de dois personagens: Philip, homem mais velho que é um amor não correspondido de Cheryl há anos e Clee, filha jovem adulta dos chefes de Cheryl que decide morar com ela. A verdade é que as motivações para as mudanças de relacionamento entre Philip x Cheryl e Clee x Cheryl não ficam claras e, tirando a Cheryl, os outros personagens mal foram apresentados para o leitor até então.

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Clee é a principal causa de mudança da vida de Cheryl, mas é difícil explicar sem contar spoilers. De qualquer maneira, as duas começam a se relacionar de uma maneira bem estranha (e não é exatamente um romance entre as duas). É algo que lembra a ideia do Clube da Luta basicamente. Pois é.

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Cheryl é uma personagens com uma ambiguidade curiosa: ao mesmo tempo que pode parecer apática, algumas de suas ações ou inações mostram uma personalidade um tanto forte (por exemplo: não tomar uma atitude contrária a uma agressão específica de outra pessoa por sentir um prazer com isso). Essa construção é um aspecto interessante da obra.

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Um personagem que gosto muito é o Rick. Apesar de ser secundário, ele tem uma importância bem interessante na história, principalmente para determinar a personalidade de Cheryl. Este é um ótimo momento do livro.

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O que mais me incomoda é a falta de motivação dos personagens para suas ações e alterações ao longo da história, principalmente no começo. Em uma divisão hipotética, a segunda metade é muito mais trabalhada nesse aspecto, os personagens parecem mais completos e menos aleatórios.

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Um dos grandes temas do livro é a maternidade, abordada de uma maneira bem não tradicional. É bem interessante como ela usa vários personagens para trazer diferentes sentimentos em relação ao tema.

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Apesar do sentimento de estranhamento (talvez até por causa disso), fiquei com muita vontade de reler o livro, principalmente o começo, para ver se entendo melhor os personagens e as motivações.

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Você já leu esse livro? Se sim, me conta o que você achou!

Já falei aqui sobre o It Chooses You, um livro de não-ficção da autora.

Título: The First Bad Man
Autora: Miranda July
Editora: Scribner
Ano: 2015
ISBN: 9781439172568

A previsão de publicação desse livro no Brasil é para o segundo semestre de 2015, pela editora Companhia das Letras.

 

 

Filmes de Janeiro

Resolvi que esse ano quero registrar os filmes que vi. E que maneira mais legal de fazer isso que por aqui?

Garota Exemplar

Foi um filme de avião. Ele tem algumas falhas de roteiro, mas ele me distraiu bastante. E eu achei a Rosamund Pike ótima.

Relatos Selvagens

Um pouco de Tarantino, um pouco de Almodovar… são seis curtas do diretor argentino Damián Szifron. Não existe uma linha entre eles, apenas um tanto de loucura dos personagens. Eu gostei do humor mais negro dele, da cenografia e da atuação da maioria dos atores. 

A Teoria de Tudo

Fiquei com opiniões bem divididas. Gosto do tom comedido do filme quanto à história de superação do Hawking – mostra tanto os momentos em que ele foi forte como os momentos de mau humor. Mas ele tem também um tom de comédia romântica que achei meio desnecessário.

Livre

Gosto da história e da Reese Witherspoon, mas achei um pouco longo demais. Algo legal é a montagem, que intercala os momentos de caminhada em trilha da personagem com os problemas da vida dela antes de ir viajar.

Caminhos da Floresta

Mais um filme infantil para adultos – com quase duas horas e meia de duração e referências a vários contos de fada diferentes, acho pouco provável que agrade a pouca paciência das crianças. Ainda assim, acho que adultos que cresceram com os desenhos da Disney vão se divertir bastante com esse filme. O que mais gostei dele foi o roteiro – que mistura de um jeito bem interessante histórias como Chapeuzinho Vermelho, Rapunzel, Cinderela e João e o Pé de Feijão.

Celeste e Jesse para sempre

Muita gente já tinha me indicado esse filme e ah, não gostei tanto. É uma comédia romântica sobre um casal que começa o filme já separado (depois de seis anos de casamento). Mas eles têm uma certa dificuldade de se separar de fato e ficam em um meio termo de “somos amigos”. Em momentos diferentes os dois tentam voltar. Conclusão: é meio enrolado.  

Whiplash – Em busca da perfeição

Esse filme narra a história de um baterista que abandona vários aspectos da sua vida para tocar. No caminho, encontra um professor bastante exigente e com técnicas brutas de ensino. Achei o filme um tanto enrolado, mas gostei muito da trilha sonora – importante comentar aqui que ele é baterista de jazz.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Gosto muito do jeito que ele foi gravado, dos takes, de alguns planos mais longos e das brincadeiras com efeitos especiais. Gosto do enredo, mas acho que podia ser um pouco mais curto. Acho a relação que ele faz com o Raymond Carver super simpática.

Por mais livrarias

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Pelo segundo ano consecutivo, acontece no Reino Unido a campanha Books Are My Bag, que incentiva a compra de livros em lojas físicas perante uma queda de vendas em prol de lojas online. Durante o mês de outubro, o evento promove eventos, promoções e distribui eco-bags e outros objetos promocionais para incentivar a venda em livrarias.

Vi as ações deles pela internet (existem vários vídeos no Youtube) e comecei a pensar no meu próprio consumo. Adoro ir em livrarias (o cheiro, ver os livros de perto), mas compro muito em lojas online (preço). Ainda assim, se tivesse que escolher apenas uma entre os dois formatos, com todas as vantagens e desvantagens, ficaria com livrarias físicas (encontrar um livro do qual nunca tinha ouvido falar é uma grande alegria).

Por isso, para que esses lugares continuem existindo, convido: vamos ir mais em livrarias?

Primeiras linhas

Eu não acho bons começos de livros exatamente essenciais – vou continuar lendo a obra se não achei as primeiras páginas sensacionais. Mas ultimamente li alguns livros com primeiras linhas incríveis e comecei uma espécie de coleção imaginária delas, que resolvi registrar em um lugar mais seguro que a minha memória nada confiável.

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“O drama da vida, ela lhe disse um dia, é que as pessoas sempre querem alguma coisa. O desejo está lá, sempre esteve. As pessoas movem o mundo por ele. Feliz é quem consegue, infeliz quem não consegue. Já o drama da sua vida é que você não quer nada”.

 Não muito – Bolívar Torres (7Letras)

“Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias”.

 Noites de Alface – Vanessa Barbara (Alfaguara)

“Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo issi enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de gentlemen’s agreement que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território”.

A Morte do Pai – Karl Ove Knausgard (Companhia das Letras)

“Uma vez me perdi. Tinha seis ou sete anos. Vinha distraído e de repente não vi mais meus pais. Me assustei, mas logo retomei o caminho e cheguei em casa antes deles – continuavam me procurando, desesperados, mas naquela tarde achei que tinham se perdido. Que eu sabia voltar para casa e eles não”.

Formas de voltar para casa – Alejandro Zambra (Cosac Naify)

“Uma vez que cabe a mim, teu narrador, a obrigação de narrar, e a ti, meu leitor, a de ler – se assim te apraz -, faz-se mister, por questões de cortesia, que nos apresentemos. Porém, não sendo possível que eu te conheça, não há sentido que conheças a mim, posto que cá eu ficaria em posição de desvantagem contigo. Permita-me, então, que aqui apresente somente minha intenção, e esta é a de narrar. E, ao fazer tal afirmação, estabeleço o compromisso de que te narrarei somente aquilo que vi; e o que não vi, ouvi; e o que não vi nem ouvi, li. Já aquilo que não vi, ouvi ou li, inventei, pois, se as passagens mais cheias de assombros e maravilhas são todas verídicas, coube às mais banais e cotidianas o fardo de serem todas dictícias, do contrário, como se sabe, a narrativa não anda, e é preciso das verossimilhança aos fatos”.

Quatro Soldados – Samir Machado de Machado (Não Editora)

 

Ideal Bookshelf

No momento viciada-em-Girls que estou, foi super legal achar a Ideal Bookshelf da Lena Dunham. (Para quem não sabe: Girls é um seriado, criado, roterizado e estralado pela Lena Dunham – uma coisa meio Woody Allen mesmo. E Ideal Bookshelf é um projeto super fofo da artista Jane Mount, em que ela desenha a coleção ideal de livros de várias pessoas).  

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Desenho da Jane Mount com os livros da vida de Lena Dunham.

Foram já para a lista de leitura.

Pergunta difícil: quais seriam os livros da sua prateleira ideal?

 

A arte de guardar livros

Nossas estantes não podem negar – muitos de nós leitores somos também colecionadores de livros. E, apesar de ser um dos grandes prazeres da nossa vida (da minha pelo menos é), nem sempre é fácil fazer isso.
A primeira questão é, claro, dinheiro. Mas acho esse um assunto chato e, a não ser que você seja milionário, ele é um problema para quase tudo na vida, não só para livros. Por isso, ele está sendo cordialmente ignorado nesse texto.
Sobre o que eu realmente quero falar é espaço – ou sobre como temos que ser flexíveis na hora de guardar todos os livros que temos (e queremos ter).  
Shakespeare and Company – livraria que domina a arte de guardar muitos livros em pouco espaço (daqui).
A situação é bem mais simples quando começamos. Ainda somos crianças ou adolescentes e temos uns 30 livros no quarto. Já começamos a achar a pilha grande, mas provavelmente temos alguns espaços entupidos de bichinhos de pelúcia prontos para dar espaço para mais papel. É nessa época que sonhamos com as paredes feitas de livros.
Então a coleção realmente começa (fato que provavelmente coincide com seu primeiro emprego) e o espaço que tínhamos – e o que não tínhamos mas conseguimos criar – começa a ficar cheio. Nessa época da vida do leitor que começam a aparecer pilhas em lugares improváveis do quarto – dentro do armário, dividindo espaço com roupas, em cima de uma estante bem perto do teto, em cima da televisão (sim, sou na época que nem toda TV era fininha e dava para empilhar coisas em cima delas) e nos criados mudos – melhor ainda era quando a pilha se tornava um criado mudo.
Eventualmente podemos ter até uma aflição por causa disso e pensamentos do tipo “isso não é jeito digno de guardar livros”, mas é claro que preferimos permanecer com os livros. E, outro fato óbvio – preferimos gastar nosso dinheiro com mais livros ao invés de comprar uma estante bonita, dessas de revista.
Esse fato mudou um pouco para mim quando saí da casa dos meus pais e mandei fazer uma estante bem do jeito que eu queria. E preciso dizer que me decepcionei um pouco a primeira vez que coloquei meus livros nela. Ela ficou linda, não é isso. Mas eu tinha a vã esperança que aquele móvel do tamanho de uma parede fosse capaz de sustentar a coleção por mais uns cinco anos – e ela ficou quase cheia de cara. No fim, a estante sustentou só mais alguns meses antes de ficar abarrotada. Minha nova teoria é que só sabemos o volume real dos nossos livros quando temos que subir quatro lances de escadas com eles só para descobrir que não vai sobrar espaço para os próximos.
Mas claro, sempre temos nossos jeitos de melhorar a situação: deitar livros na horizontal em cima das fileiras de livros ou até criar as fileiras duplas – maneira triste porem eficiente de dobrar a capacidade da sua estante ou prateleira. E uma das vantagens de ter sua própria casa é expandir o território ocupado pela coleção – minha mãe pelo menos não deixava as minhas pilhas de livro ficarem em qualquer cômodo que não fosse o meu próprio. Agora estão no cômodo denominado “biblioteca”, no quarto e já tenho planos para o sala.

A única coisa que me preocupa são as próximas etapas da expensão – só restarão livres o banheiro, a cozinha, o porta malas do carro e o lado de fora da janela.

Literatura escrita por mulheres

Muito está sendo dito sobre como 2014 será um ano para se ler livros escritos por mulheres (caso você não tenha acompanhado ainda, recomendo as seguintes leituras: o tumblr leia mulheres 2014; um post aqui e outro aqui da Juliana Brina, d’o Pintassilgo, um texto do Arthur no Posfácio). 
Ilustra do incrível Thoca Maer, daqui.

Gosto de ideia porque sempre gostei de ler de maneira variada: sempre tento sair da minha zona de conforto como leitora e me provocar a ler coisas novas ou que não costumo ler. E faz uns quatro anos que percebi pela primeira vez que a maioria dos livros que eu tinha era escrito por homens e comecei a tentar mudar isso. Acho que ainda hoje minha estante é de maioria masculina (quem sabe eu não conte qualquer dia desses?), mas a diferença está menor.

Para dar uma humilde contribuição ao projeto, listo abaixo textos e vídeos em que falo sobre livros escritos por mulheres:

Resenhas
Hibisco Roxo – Chimamanda Adichie
Copacabana Dreams – Natércia Pontes  
Quando ia me esquecendo de você – Maria Silvia Camargo 
Je Nathanaël – Nathanaël 
Para quando formos melhores – Celeste Antunes


Vídeos

Are you my mother? – Alison Bechdel
Guadalupe – Angélica Freitas – e A Máquina de Goldberg – Vanessa Barbara
Por favor, cuide da mamãe – Kyung-Sook Shin
Dreaming in French – Alice Kaplan
It chooses you – Miranda July
Sua voz dentro de mim – Emma Forrest
Três mulheres fortes – Marie NDiaye
Fera d’Alma – Herta Müller
Filhos do Jacarandá – Sahar Delijani
Esquilos de Pavlov – Laura Erber
Tipos de Perturbação – Lydia Davis
The Cuckoo’s Calling – J.K.Rowling
Eu sou Malala – Malala Yousafsai
Noites de Alface – Vanessa Barbara
Vida Querida – Alice Munro
Perdoe-me tanto laquê – Juliana Gervason
Azul é a cor mais quente – Julie Maroh
Bing Ring – Nancy Jo Sales

PS. repararam que minha lista mostra que leio basicamente mulheres novas e vivas? Não tinha percebido esse “padrão” antes de criar a lista aqui. Pensando em mudar isso, já estou lendo contos da Flannery O’Connor. Outras sugestões?

Da quantidade de livros que temos em casa

 

Escrivaninha da Susan Sontag, com pilhas e pilhas de livros nas estantes (daqui).

No fim de 2013, me peguei pensando sobre a quantidade de livros não lidos que tenho em minha estante. Os dois metros e meio (medi mesmo, veja aqui) me assustam – como eles ficam espalhados pela estante, em diferentes cubículos, não tinha ideia do (grande) volume total deles.

Depois de passado o susto, não consegui decidir se aquela quantidade era boa ou ruim. Amo livros, então ter muitos é algo bom. Ter possibilidades e liberdade para escolher as próximas leituras também vai para o lado de prós da lista.

Ainda assim, acho que nunca tive tantos livros não lidos em casa antes. Sempre acreditei que o verbo principal que devemos usar com livros é “ler”, não “comprar”, “ter” ou “acumular”. A função do objeto livro só se cumpre com sua leitura e eu tenho cerca de 100 deles esperando que eu faça isso.

Um pouco opressor, não?

Na mesma semana, em uma conversa com um amigo que já trabalhou em uma livraria, fiquei sabendo da existência de pessoas que compram livros para enfeitar paredes e estantes, escolhendo os volumes pelas lombadas. Minha primeira reação foi: “mas e quando chega alguma visita e pergunta sobre os livros? eles assumem que nunca leram?”. Em seguida, penso que é possível que ninguém se importe com isso (um pouco de preconceito, eu sei, mas ainda me assusto com o fato de que as pessoas comprariam livros – encadernados de papel com informações dentro – apenas para enfeite).

Só depois do susto inicial me lembrei da existência daqueles livros grandes e bonitos que as pessoas compram para as mesinhas da sala ou dos políticos que alugam livros em capa dura para posicionar estrategicamente pelo cômodo em que dão entrevistas importantes, para dar mais credibilidade (também é verdade, veja).

Todos eles me assustam. Gosto de comprar livros e gosto de capas bonitas, mas acho que nada importa se eles não foram lidos. E muitos dos meus não foram e alguns estão ali me esperando desde 2009.

Achei que isso merecia uma listinha de metas:

1. Comprar menos livros. Sei que não vou ficar sem comprar livros (acredite, já tentei), mas acho que menos pode ser possível.  

2. Ler os livros que me esperam, e tentar começar pelos que estão por ali há mais tempo.

3. Me permitir o desapego. Se não li até agora, começar a ler e realmente não gostar, está na hora do livro ter um dono mais atencioso que eu.  

4. O mesmo vale para a pilha de livros em alemão, que comprei com a intenção de exercitar a língua e que estão encalhados desde 2012 mais por preguiça que por qualquer outra coisa.

Fiz um vídeo aqui, em que comento sobre 12 livros que quero ler esse ano. Nele, mostro alguns que estão fazendo aniversários demais na estante sem serem lidos.

E que 2014 seja conhecido como o ano de desencalhe de leituras.