Bibliófilos e suas bibliotecas

Essa semana, publiquei no Youtube um vídeo com comentários sobre o livro “Fantasmas na Biblioteca”, de Jacques Bonnet. Bonnet é francês, editor, tradutor e… bibliófilo – um colecionador de livros. Na obra, o autor fala sobre como é viver entre (muitos) livros, como é o processo de escolha, organização e leitura das diferentes obras que tem em casa.

Depois disso, fiquei pensando… como são as bibliotecas dos bibliófilos? Afinal, se já temos problemas nas nossas casas com nossos livros, imagina eles (com seus 20, 30, 40 mil ou mais). Abaixo, algumas imagens:

Fonte da imagem
O próprio Jacques Bonnet, que comenta no livro que precisou espalhar seus cerca de 20 mil volumes em diversos cômodos da casa. 

Fonte da imagem

Alberto Manguel, que também tem vários livros publicados sobre o tema (como o “Uma noite na biblioteca” ou “Uma história da leitura”).

Fonte da imagem

José Mindlin, um bibliófilo brasileiro, chegou a ter 45 mil volumes na sua biblioteca. Faleceu em 2010.

Fonte da imagem 

Umberto Eco é um dos autores que defendem que as grandes bibliotecas não são lidas por completo – e nem são feitas com esse objetivo. A intenção é ter tudo por perto, disponível, para quando quiser ler.

Mensagem – Fernando Pessoa

Fernando Pessoa é um dos grandes nomes da literatura. Sua inventividade e técnica poética fazem dele um dos poetas mais conhecidos e admirados da língua portuguesa. É um dos preferidos de muita gente, eu inclusive. E tenho um atração especial por Mensagem (1934), o único livro em português que ele publicou em vida (e que ficou em 2º lugar(‼) no prêmio Antero Quental daquele ano (Romaria, de Vasco Reis, foi o primeiro)).
Fernando Pessoa quase sempre nos oferece múltiplas camadas de leitura e quanto mais se sabe da tradição portuguesa e do contexto da época em que foi escrito (entre 1914-1934), mais deliciosa se torna essa obra, riquíssima de recursos poéticos. Então vou começar mostrando um pouco da estrutura da obra, muito ligada aos símbolos de Portugal, e comentando brevemente as chamadas Conferências Democrática do Cassino, ocorridas em 1870.

PARTE
SUBDIVISÃO 
POEMAS
1. Brasão
I. Os Campos 
Os castelos 
O das quinas 
II. Os Castelos 
1) Ulisses 
2) Viriato
3) O conde D. Henrique
4) D. Tareja
5) D. Afonso Henriques 
6) D. Dinis 
7 a) D. João, o primeiro
7 b) D. Filipa de Lencastre
III. As Quinas 
D. Duarte, rei de Portugal
D. Fernando, infante de Portugal
D. Pedro, regente de Portugal
D. João, infante de Portugal
D. Sebastião, rei de Portugal
IV. A Coroa
Nunálvares Pereira 
V. O Timbre
A cabeça do grifo / O infante D. Henrique
Uma asa do grifo / D. João, o segundo
A outra asa do grifo / Afonso de Albuquerque
2. Mar Português
O infante
Horizonte
Padrão
O monstrengo
Epitáfio de Bartolomeu Dias 
Os colombos 
Ocidente
Fernão de Magalhães 
Ascensão de Vasco da Gama
Mar Português
A última nau 
Prece
3. O Encoberto
I. Os Símbolos 
D. Sebastião
O Quinto Império
O Desejado
As Ilhas Afortunadas 
O Encoberto
II. Os Avisos 
O Bandarra
Antônio Vieira
Terceiro
III. Os Tempos 
Noite
Tormenta
Calma
Antemanhã 
Nevoeiro

Como mostram os títulos das partes, a estrutura da obra reflete os símbolos e as personagens (históricas e mitológicas) de Portugal numa sequência cronológica, tendo em Os Lusíadas uma obra com a qual evidentemente dialoga.
Das citadas Conferências Democrática do Cassino saiu o diagnóstico que Portugal se tornara um país decadente. Potência mundial dos séculos XIV a XVI, o país perdeu sua importância e ficou relegado à margem da ordem mundial. Intelectuais e escritores portugueses conviviam com a necessidade de entender as razões de o porquê dessa decadência e do que fazer para novamente ser protagonista da história.
Mensagem é a resposta de Pessoa, que, numa possível leitura, nos indica que Portugal não tinha que lamentar as perdas materiais que sofreu (como a independência das colônias conquistadas), mas a perda da sede, da vontade, do espírito que havia levado o país à vanguarda marítima, comercial e científica de outrora.
E Fernando Pessoa faz isso mostrando como o povo português teve muitos feitos e heróis, realizando aventuras de proporções épicas tendo como um dos pontos centrais o sonho. E que é o declínio desse sonho que deixou Portugal imerso no grande nevoeiro em que se encontrava no início do século XX.
O início da obra é por si só magistral, mostrando de cara toda a força da imaginação e da construção de imagens do poeta. Com versos que fazem parte de nossa cultura e imaginário, Pessoa visualiza a Europa como um corpo feminino. Reclinada sobre um de seus cotovelos (a Inglaterra) tem seu outro recuado, a Itália – o rosto, voltado para vastidão do Oceano à frente, é Portugal.
I. OS CAMPOS
PRIMEIRO / OS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.
SEGUNDO / O DAS QUINAS
Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa!
Baste a quem baste o que lhe basta
O bastante de lhe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.
Os Lusíadas já traziam Portugal como “cabeça da Europa toda” (e essa intertextualidade com Camões, de suporte e superação, está sempre presente). Mas lá era uma vontade divina, de que os portugueses vencessem os mouros (a conquista de cada castelo é representado no escudo português), aqui uma condição e uma missão mais abrangente, que aguarda o que virá, mas também vê além, quase que a guiar e liderar toda a Europa.
Na simbologia heráldica, as quinas representam as chagas de Cristo e o dinheiro com que foi vendido por Judas, evidenciando a missão portuguesa de lutar contra os infiéis. No segundo poema, as quinas podem ser entendidas como o sofrimento, o preço pago pela nação portuguesa para construir sua história. Nele estão contidas todos os argumentos da obra, da mensagem que ele quer deixar aos portugueses: a glória futura, a desgraça como sinal de eleição, a necessidade de se libertar da materialidade e a identificação com Cristo (definido como tal pelo sacrifício).
Assim se dividem os poemas dessa primeira parte, remetendo ao brasão de Portugal. Trata do nascimento e da fundação da nação, com as grandes figuras da história de Portugal, desde Dom Henrique, fundador do Condado Portucalenses, passando por sua esposa, Dona Tareja, e seu filho, primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques, até o infante Dom Henrique (1394-1460), fundador da Escola de Sagres e grande fomentador da expansão ultramarina portuguesa, e Afonso de Albuquerque (1462-1515), dominador português do Oriente. Incluindo Ulisses que, na tradição mitológica presente também nOs Lusíadas, seria um dos fundadores de Lisboa
Mar português, a segunda parte, apresentadas as grandes navegações portuguesas, que levou o país a seu lugar de destaque. Padrão evidencia a amplitude dessa missão e aventura portuguesa:
III. PADRÃO
O esforço é grande e o homem é pequeno.
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
Este padrão ao pé do areal moreno
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita.
Este padrão sinala ao vento e aos céus
Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
O por-fazer é só com Deus.
E ao imenso e possível oceano
Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
Que o mar com fim será grego ou romano:
O mar sem fim é português.
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
E faz a febre em mim de navegar
Só encontrará de Deus na eterna calma
O porto sempre por achar.
O poema mais conhecido de toda a obra, Mar Português, também remete aOs Lusíadas, no episódio da “despedida das naus em Belém”. São as lágrimas de Portugal, o salgado do mar. Aqui já se vê o eco do “compra-se a glória com desgraça”. A referência final ao Cabo Bojador, na costa do Marrocos, traz o mito existência de monstros marinhos, responsáveis pelo desaparecimento de inúmeras embarcações que tentaram ultrapassá-lo. O feito de superá-lo, como não podia deixar de ser, foi de um português, Gil Eanes em 1434. O fechamento é de mais uma belíssima imagem e sonoridade, com sua forte mensagem – embora tantos perigos, o reflexo do céu está no mar. Nisso, ao contrário dOs Lusíadas, as navegações não são um fim em si mesmo, não são pela sua materialidade, mas pelo seu caráter espiritual (“em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos”) que podem levar Portugal ao seu lugar de destaque.
X. MAR PORTUGUÊS
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Na terceira parte, o Encoberto, a figura mística de Dom Sebastião e as inúmeras profecias ligadas a ele. Dom Sebastião, rei de Portugal, teve a frota dizimada em ataque aos mouros em 1578. Entre outros, Bandarra e Antônio Vieira preveem o retorno de Dom Sebastião para resgatar o poderio de Portugal, criando o Quinto Império, marcando a supremacia de Portugal sobre o mundo. A visão messiânica de São Sebastião carrega tudo que o jovem rei representou: o sonho de grandeza, da expansão do cristianismo e das conquistas ultramarinas. Os poemas parecem justamente trazer o clima de magia em torno de presságios e adivinhações, daí o tom enigmático e as indagações do que está por vir. Quando está por vir? O último verso do último poema responde: É a hora!
QUINTO / NEVOEIRO
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer-
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.
Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…
É a Hora!
(Para quem quiser mais, José Carrero faz – com muito mais propriedade – uma análise extensa, e por vezes diferente, de Mensagem nesse link

Sentimento do Mundo – Carlos Drummond de Andrade

“Tenho apenas duas mãos/e o sentimento do mundo”. Essa passagem antológica abre o terceiro livro de Drummond, Sentimento do Mundo, lançado em 1940. Imerso em sua época, as ditaduras, o nazismo e a segunda guerra fazem parte do eixo temático do livro, que oscila entre cidade e interior, atualidade e memórias e o indivíduo e o mundo – tema este presente desde o primeiro livro de Drummond, com sua também abertura antológica, o Poema de Sete Faces.
Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauchena vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
De certo modo, a divisão de estrofes de Drummond sempre foi a chave para ler seus poemas. Os versos livres, as rimas ausentes e a linguagem coloquial trazem consigo profundo lirismo e alguma ironia, quase sempre estabelecendo a relação do eu/mundo interior com mundo exterior, carregando todos os seus fantasmas. Nesse sentido, o poema mais conhecido talvez seja a Confidênciado Itabirano. E parar lutar contra o que hoje é fotografia, mas ainda dói, vem a busca de um vínculo com o que está fora do eu. Em Poema da Necessidade isso é feito pela repetição do “é preciso”, mas concluindo pelo fim do mundo. Entre todas as possibilidades que a linguagem permite, criar mil mundos novos, o desfecho do poeta é o fim de tudo, de tudo que aprisiona e oprime (embora, de certa forma, anuncie um mundo novo em O Operário do Mar). As preocupações, inquietações e imposições da vida moderna – repetidas constantemente, não poderiam mesmo ter outro fim.
Poema da necessidade
É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
É preciso comprar um rádio,
É preciso esquecer fulana.
É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.
É preciso viver com os homens,
É preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.
Assim, vemos o homem sempre carregando seu passado: a família, a cidade natal, a formação moral, o medo e a angústia, sempre o medo e a angústia. Em Sentimento do Mundo isso se depara com a política ditatorial, a luta pelo poder, a ganância, a corrupção, a diferença social, a imposição comportamental e a violência. Inocentes do Leblon não poderia ser mais atual com seu retrato dos que querem ignorar. Mas se a poesia cintila com a possibilidade de servir como meio de libertação, inclusive com função de participação social, não é otimista o desfecho que ela traz. Reviver os fantasmas e raciocinar a partir do medo e do autoritarismo nos faz nos compreendermos melhor, mas não resolve o problema. É negro o amanhecer.
Sentimento do mundo
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer.
Esse amanhecer
mais noite que a noite.

Rilke Shake – Angélica Freitas

Angélica Freitas já chegou ao público e à academia – feito raríssimo para poetas contemporâneos, especialmente tão novos quanto ela, que está apenas em seu segundo livro de poesia.
Rilke shake, sua obra de estreia, mostra, desde o título, uma temática típica de nossos tempos, o diálogo entre o erudito e o popular, a tradição e sua transformação – a mistura milk shake que fazemos da cultura popular (e de nós próprios) com os grandes nomes, como o de Rainer Maria Rilke.
Angélica ignora a métrica, seu ritmo é “de ouvido” e podia insistir mais nas rimas soantes despadronizadas (que faz muito bem, como em “Entro na livraria do bobo” e “Rilke shake”), mas a força de seus temas, as imagens que constrói e o uso narrativo que faz da poesia superam em muito eventuais defeitos, naturais de uma obra de estreia.
ENTRO NA livraria do bobo
não tenho dinheiro
e tampouco tenho talento para o crime.
desfilam ante meus olhos
títulos maravilhosos
moribundos de tanto estar
nas prateleiras.
roube-nos, dizem eles,
não aguentamos mais ficar aqui
na livraria dos bobos.
quem acreditaria
nesta versão dos fatos?
ajudem-me, maragatos
nesta hora afanérrima
de uma libertadora paupérrima
de livros.
retumba meu coração, retumba
mais que a bateria do salgueiro
treme o corpo por inteiro
e as mãos já suam em bicas.
ganho a rua, as mãos vazias
e os livros gritam: maricas.
O erudito e o popular está presente em vários momentos do livro, no léxico e em referências explícitas (Rilke, Gertrude Stein, Ezra Pound…) e implícitas (como, em destaque no poema anterior, a lembrança do “retesa os músculos, retesa” do belíssimo soneto de Cruz e Souza) mescladas com objetos (como a bateria do salgueiro) e vocábulos populares. Outra marca é a mescla de idiomas, também recorrente entre as novas gerações de poetas, talvez mais acostumados em se expressar em diversos idiomas. Tudo bem que seu “plano poético” nem sempre funcione, soando às vezes é óbvio, sacal e não é mais que pastiche, mas não se pode negar que Angélica Freitas tem objetivos ao escrever e trabalha sua escrita, com resultados que justificam sua posição como uma das grandes promessas de uma nova geração de poetas. O que pode ser percebido no poema título do livro e, com mais força ainda, em sua segunda obra Um útero é do tamanho de um punho (comentado nesse vídeo aqui).
Rilke shake
salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga
nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe
Com versos curtos, repletos de ironias, humor (“entre os ringues polifônicos e a queda da marquise/ morreu ontem executada a poor elise”), traços de pertencimento e ruptura (reflexo, talvez, do eterno problema presente de identidade) e a questão de gênero que seria tão bem explorada na próxima obra, que tem seu ápice nas imagens de dois poemas seguidos “sashimi” e “sereia a sério”. No primeiro, a tarefa, “ocupação tão masculina/sushiman” de “retalhar/ melhor o peixe” será contraposta, do outro lado da lâmina, pela sereia símbolo de mulher que “”pisa em facas quando usa os pés”:
Sereia a sério
o cruel era que por mais bela
por mais que os rasgos ostentassem
fidelíssimas genéticas aristocráticas
e as mãos fossem hábeis
no manejo de bordados e frangos assados
e os cabelos atestassem
pentes de tartaruga e grande cuidado
a perplexidade seria sempre
com o rabo da sereia
não quero contar a história
depois de andersen & co
todos conhecem as agruras
primeiro o desejo impossível
pelo príncipe (boneco em traje de gala)
depois a consciência
de uma macumba poderosa
em troca deixa-se algo
a voz, o hímen elástico
a carteira de sócia do méditerranée
são duros os procedimentos
bípedes femininas se enganam
imputando a saltos altos
a dor mais acertada à altivez
pois
a sereia pisa em facas quando usa os pés
e quem a leva a sério?
melhor seria um final
em que voltasse ao rabo original
e jamais se depilasse
em vez do elefante dançando no cérebro
quando ela encontra o príncipe
e dos 36 dedos
que brotam quando ela estende a mão
Se poesia é para, antes, falar com e alegrar os corações humanos, Angélica Freitas nos oferece, já de cara, uma bela conversa e deleite.
NÃO adianta
chegar na porta
e ordenar
abra
öffnen
open
é preciso
girar a chave
e mais
é preciso saber
qual chave
ou então
esbarrar na dureza
de certos materiais
mogno pinho
cedro ou lâmina
de qualquer madeira
conhecer a chave
ou intuir para que
lado gira
tantos têm
tão pouca paciência

Building Stories

Na sexta (19 de julho) o “Building Stories”, de Chris Ware, ganhou quatro categorias do prêmio Will Eisner, realizado na Comic-Con. As quatro categorias foram Melhor Álbum Gráfico Inédito, Melhor Escritor/Ilustrador, Melhor Colorista e Melhor Letrista. (Quer ver todo mundo que ganhou? Olha aqui!)


Li o livro em abril, depois de um tempo tentanto comprar. E wow, um dos melhores livros que li esse ano até agora. 

O livro na realidade é uma caixa com vários caderninhos, livrinhos, tirinhas e até jornais. Não existe um começo ou um fim – é só ir pegando eles e lendo. Com isso, a construção dos personagens é lenta, e um pouco confusa no comecinho – mas incrível depois. Por não ter uma ordem específica, cada leitor vai ter um processo e uma sequência diferentes de apresentação de personagens. Nesse sentido, a cronologia assume um papel curioso – o leitor acaba entrando na vida de alguém em um ponto aleatório, e descobrindo aos poucos o que veio antes ou depois disso. 

É importante falar que o livro é basicamente sobre a vida de pessoas e seus sentimentos (principalmente solidão), que podem ser abordados à exaustão por vezes. É bonito, no fim acaba sendo uma crônica uma vida inteira. 

Para mim, um dos pedaços mais legais é um que mostra um prédio pensando. Ele dá vida à construção – e foi um jeito ótimo de provocar uma reflexão sobre as pessoas que moram ali. Outro pedaço legal é a história de um casal de abelhas (fofo, fofo).


O livro é terrivelmente humano, o que pode acabar sendo cruel também. É curioso ver o que acontece depois que o sonho aparentemente se concretiza.

Uma das personagens, que é um pouco como a personagem principal, parece sempre frustrada e parece com uma alma inquieta, esperando mais mas sem saber o que. Ela vai indo com a vida, sem fazer nada muito grande para mudar as coisas, mesmo quando não se sente confortável com o que está na frente dela. Isso pode parecer apatia, mas em outros momentos ela parece bastante corajosa por se jogar em uma nova situação, sem medo de não dar certo. Ela ainda tem uma consciência humana muito forte, uma espécie de sensação de pertencimento ao mundo, de conexão entre as coisas.


Jimmy Corrigan, outro livro do mesmo autor, foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Ainda não vi nada sobre uma previsão de uma tradução desse – é inclusive uma obra complexa para ser traduzida.



Poemas – Vladimir Maiakóvski

Maiakóvski é meu poeta preferido. Digo isso com certa culpa literária/patriótica/linguística, mas a culpa não é suficiente para tirar-lhe de seu lugar para mim. Um dia aprenderei russo e será, primeiro, para ler Maiakóvski no original. Um de seus poemas mais famosos é uma resposta ao bilhete de suicídio (belíssimo),  do também poeta russo (e desafeto) Serguei Iessiênin, que se matou enforcado e de pulsos cortados em seu quarto no hotel Inglaterra.
A Serguei Iessiênin – Vladimir Maiakovski (poema completo)
Você partiu,
como se diz,
para o outro mundo.    
Vácuo…
Você sobe,
entremeado às estrelas.
Nem álcool,
nem dinheiro.
Sóbrio.
Vôo sem fundo.
Não Iesiênin,
não posso
fazer troça,
Na boca
uma lasca amarga
– não a mofa.
Olho –
            sangue nas mãos frouxas,
você sacode
                o invólucro
                        dos ossos
Pare,
       basta!
            Você perdeu o senso?
Deixar
            que a cal
                        mortal
                                   lhe cubra o rosto?
Você, com todo esse talento
para o impossível;
hábil
como poucos.
Por quê?
Para quê?
Perplexidade.
– É o vinho!
– a crítica esbraveja.
Tese:
refratário à sociedade.
Corolário:
muito vinho e cerveja.
Sim,
se você trocasse
a boêmia
 pela classe.
A classe agiria em você.
e  lhe daria um norte. 
E a classe,
por acaso,
mata a sede com xarope?
[…]
Remédio?
            Para mim,
                        despautério:
mais cedo ainda
                        você estaria nessa corda.
Melhor
morrer de vodka
que de tédio!
[…]
Talvez,
se houvesse tinta
no “Inglaterra”
você
não cortaria
os pulsos.
Os plagiários felizes
pedem: bis!
Já todo
um pelotão
 em auto-execução.
Para que
aumentar
o rol dos suicidas?
Antes
aumentar
a produção de tinta!
[…]
Por enquanto
há escória
de sobra.
O tempo é escasso –
mãos à obra!
Primeiro
é preciso
transformar a vida,
para cantá-la –
em seguida.
Os tempos estão duros
para o artista?
Mas,
 dizei-me,
 anêmicos e anões,
os grandes,
 onde,
em que ocasião,
escolheram
uma estrada
batida?
[…]
Para o júbilo
o planeta
está imaturo,
É preciso
arrancar alegria
ao futuro.
Nesta vida,
morrer não é difícil,
O difícil
é a vida e seu ofício.
           
O descobri aos 18 anos quando, estagiário de Física, conversei com o estagiário de Língua Portuguesa que carregava um livro envolto sempre num plástico. Me emprestou. Três dias depois me pediu de volta. Já tinha lido, relido e trelido, mas só devolvi quando o meu chegou da compra pela Internet. Desde então o li mais de 50 vezes. Bem mais.
Um dia o perdi, comprei outro, achei o anterior. O novo ficou no plástico durante anos – seguro na estante caso acontecesse algo com o primeiro. Piada entre amigos só saiu de minha vista quando o dei de presente para minha namorada (com nova piada de amigos), hoje minha esposa (e o livro voltou aqui para casa!).
O vigor, o destemor, a dramaticidade, a invenção e o engajamento crítico e político, a literatura/vida revolucionária, a sonoridade e, sobretudo, as imagens impressionam. Muito. Tudo em Maiakóvski é grandioso, é duradouro, é alento e incômodo. Poesia como forma de produção, dificílima, complexíssima, mas forma de produção.
A FLAUTA-VÉRTEBRA(prólogo)
A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.
Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.
Num primeiro momento, a temática é evidente par atrair os jovens. Com o tempo, o fervor passa, a inocência passa e até a crença no futuro arrefece. A poesia de Brecht vai me parecendo mais ingênua, mas não a de Maiakóvski. O russo é capaz de tocar na flauta das próprias vértebras, bradar a plenos pulmões pela revolução e pela humanidade, cantar pela vida e se suicidar. Não fizessem mais nada além de traduzir parte da obra de Maiakóvski e Boris Schnaiderman e os irmãos Campos já teriam seus nomes na história dos amantes de literatura.
Comecei a escrever “a sério” por querer fazer parte do que Maiakóvski fazia: rimas eco, assonâncias e aliterações, pausas e ritmos, disposição dos versos e, principalmente, grandiosidade de imagens. A maioria pastiches sem futuro que se perderam entre rascunhos, mas ainda sei que quase sempre que começo um poema, é ele quem eu queria ser.
Cartaz de Alexandr Rodchenko
A PLENOS PULMÕES 
(Primeira Introdução ao Poema)
Caros
          camaradas
                      futuros!
Revolvendo
        a merda fóssil
                        de agora,
perscrutando
estes dias escuros,
talvez
              perguntareis
                            por mim. Ora,
[…]
A mim cabe falar
                de mim
                      de minha era.
Eu – incinerador,
                 eu – sanitarista,
a revolução
                    me convoca e me alista.
[…]
Triste honra,
                 se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
           escarra a tuberculose;
putas e rufiões
                 numa ronda de sífilis.
Também a mim
          a propaganda
                        cansa,
é tão fácil
        alinhavar
                romanças, –
mas eu
          me dominava
                  entretanto
e pisava
            a garganta do meu canto.
[…]
Meu verso chegará,
                não como a seta
lírico-amável,
              que persegue a caça.
Nem como
          ao numismata
               a moeda gasta,
nem como a luz
                   das estrelas decrépitas.
Meu verso
          com labor
               rompe a mole dos anos,
e assoma
    a olho nu,
                 palpável,
                      bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
                por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
               versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
                          como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
                mas terrível.
[…]
Desdobro minhas páginas
          – tropas em parada,
e passo em revista
                          o front das palavras.
Estrofes estacam
             chumbo-severas,
prontas para o triunfo
          ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
               as maiúsculas
           abertas.
Ei-la,
    a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
                      alerta para a luta.
Rimas em riste,
      sofreando o entusiasmo,
eriça
        suas lanças agudas.
E todo
      este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
                proletários do planeta,
cada folha
            até a última letra.
[…]
Morre,
          meu verso,
                    como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
      sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
          sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, –
                    entre nós todos, –
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
             na refrega
                            e no fogo.
[…]
Camarada vida,
            vamos,
                para diante,
galopemos
      pelo qüinqüênio afora.
Os versos
      para mim
              não deram rublos,
nem mobílias               
de madeiras caras.
Uma camisa
      lavada e clara,
                    e basta, –
                              para mim é tudo.
Ao Comitê Central
                  do futuro
                                   ofuscante,
sobre a malta
                  dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
              os cem tomos

                    dos meus livros militantes.

Litercultura

Curitiba já teve feira do livro, bienal do livro, semana da literatura e tantas outras coisas que é difícil até de lembrar de todas. O curioso é que são poucos os eventos que passam da primeira edição, mas quase todo ano temos pelo menos alguma coisa para ver. Mas enfim, o festival do momento é o Litercultura – que acontece nos dias 16, 17 e 18 de agosto.



Abaixo, coloco a listinha dos eventos que pretendo ir, mas você pode ir no site do evento ver a lista completa!

Sexta – 16 de agosto

19h30 – CONFERÊNCIA DE ABERTURA

Alberto Manguel
Falando sobre o paraíso: pode a literatura nos ajudar a construir um mundo melhor?
(Palestra em espanhol)

Sábado – 17 de agosto

10h30 – SESSÃO ESPECIAL
Marcelo Almeida conversa sobre o livro A contadora de filmes, de Hermán Rivera Letelier em sessão especial do programa de leitura Conversa entre Amigos.

14h30 – SEGUNDA  SESSÃO
Gonçalo M. Tavares, com mediação de Flávio Stein
O Bairro e o Reino, o Mal e a Ficção

17h30 – QUARTA  SESSÃO

Cristovão Tezza, com mediação de Christian Schwartz

Viagens pela leitura: leituras importantes & impactantes na formação do leitor e do escritor

19h – QUINTA SESSÃO
Ana Maria Machado, em conversa com Silio Boccanera
Palavras, palavrinhas, palavrões

(O festival continua no domingo também, mas não sei se vou em alguma coisa desse dia).
* As descrições foram tiradas do site do evento 😉


Mastodontes na sala de espera – Bruno Brum

Terceiro livro do mineiro Bruno Brum (1981), Mastodontes na sala de espera (2011) marca o autor como uma das grandes vozes da geração de poetas que começou a publicar nos anos 2000. Geração em que, cada vez mais, parece não sentir a necessidade de exibir erudição ou malabarismos linguísticos sem objetivos claros, e que também costuma deixar de lado partes da técnica poética – métrica, ritmo e rima, em especial –, priorizando a imagem, a sonoridade e a mensagem do poema.
De poesia bem-humorada, irônica e simples (e não é simples fazer isso), Bruno Brum contribui para aproximar a poesia do leitor brasileiro. Em parte por trazer correntemente para os limites da poesia discursos que não lhe eram tão comuns, como o jurídico e o científico (como em “Discurso por ocasião de um congresso internacional de pessoas jurídicas”, a banalidade e cotidiano (como em “Paisagem com dublê”).
Embora sem apresentar tantas camadas de leitura como poemas isolados (ou eu, como leitor, não tive a competência de decifrá-lo tanto), os poemas mostram incrível unidade e certo nível de questionamento por detrás de sua quase literalidade – além de nos deixar a questão (ou ampliar a visão) de até onde vai a poesia. “Noventa e nove blefes”, por exemplo, é um conjunto de frases/versos que funcionam independentemente:
NOVENTA E NOVE BLEFES
[…]
Tudo conta ponto contra.
*
Cuspo duas vezes no chão e já não estou só.
[…]
*
Comete-te a ti mesmo.
[…]
*
O vizinho mala do 202 insiste em ouvir Djavan no domingo às nove da noite. O vizinho mala do 202 sou eu.
[…]
*
Me viu e foi logo dizendo: Sou uma carta não lida, um bilhete perdido na chuva. Tentei encontrar algo que eu também pudesse ser. Um símbolo, uma imagem. Nada.
*
E eu, eu sou o demônio. Qualquer dúvida me liga.
O que nos leva a perguntar se seu conjunto forma um poema sobre o denso plano temático que o suporta e de onde emergem ótimas passagens e, principalmente a questão da não-identidade e não-territorialidade.
Sem serem sutis nem vagos – afinal são Mastodontes –, os poemas nos perguntam qual o seu lugar – a sala de espera (a espera de quem?) – e nos fazem refletir qual é o nosso. O poeta observa, com uma sincera ou forjada (se perguntar qual a opção é uma das recompensas da leitura) objetividade e neutralidade e dá sua solução: quase todos os poemas acabam com seu ponto final, o fim da definição, repetida com frequência para que não haja muita dúvida: estamos permanentemente deslocados, nada nos diferencia (de tão automatizados?) e não há nada para nós:
UM DELES (poema que abre o livro)
Os que acreditam fazem perguntas aos que parecem acreditar.
Os que parecem, parecem não ouvir.
Os que ouvem permanecem calados.
Os que respondem parecem não acreditar no que dizem
os que perguntam.
Todo se parecem em silêncio.
MUITOS (poema que fecha o livro)
Muitos falando ao mesmo tempo.
Muitos tentando dizer alguma coisa ao mesmo tempo.
Muitos, ao que parece.
Muitos ao mesmo tempo.
PERGUNTAS EM TORNO DE UMA FESTA (meu favorito e único sem o final ponto final, mas que se diferencia e sintetiza a todos):
Imagine-se em uma festa, dançando.
A música é do tipo A, e você dança de um jeito do tipo B.
Você estará no ritmo?
Você estará na realidade da festa?
Os outros irão querer dançar com você?
Você acha que será respeitado?
Não seria melhor ir para outra festa?
Ou você preferiria um lugar com cinco tipos de música tocando ao mesmo tempo?
Ou ainda um lugar onde não haja música, dança ou pessoa?
Que tipo de festa você costuma frequentar?
Com que tipo de gente você costuma se envolver?
Você responderia a essas perguntas com convicção?
Tem uma opinião formada sobre o assunto?
Pagaria para ver até aonde vai a curiosidade alheia?
Precisa de um tempo para pensar?
Há muitos outros poemas que mereciam ser trazidos para esse espaço, mas no final eu me daria conta que digitei quase o livro todo, então não retirarei o prazer do leitor de folhear, manusear e anotar (n)o livro que, aliás, também contém intervenções visuais. Assim, Mastodontes na sala de espera nos traz a visão de um poeta cinegrafista (“O cameraman só pensa em voltar para casa”), que mesmo quando fala em primeira pessoa trata de cenas muito mais do que sentimentos (quase sempre representados mecanicamente) e costura, muito bem, sua obra (poesia?) em torno do não-pertencimento e da não-identificação.
RITMOS VARIADOS
Todos os boleros do mundo
soando juntos deveriam fazer
algum sentido,

mas não fazem.

Gonçalves Dias

Qual teu poeta favorito? Sempre que me perguntam isso, Gonçalves Dias é o primeiro nome que me vem na cabeça (Maiakovski um milissegundo depois). Não que eu reconheça em Dias o melhor poeta que já li, mas foi em quem eu primeiro me fascinei pela poesia.
Parede que olho 
O maranhense Gonçalves Dias (1823-1864) é o primeiro escritor de gabarito a fazer uma poesia mais brasileira. A temática indianista (“um dos primeiros pródomos visíveis do movimento que enfim culminou na independência: o sentimento de superioridade a Portugal” disse Capistrano de Abreu), sua dicção bem menos francesa (embora ainda bastante portuguesa), sua variedade de poesia lírica, mas também de narrativas épicas e dramáticas (sim, era possível usar poesia para contar histórias, boas histórias) – isso tudo me cativava. Mas minha fascinação era o ritmo, a cadência sedutora do verso, a espontaneidade com que se alternavam sílabas tônicas e átonas (especialmente no crescente duas átonas e uma tônica). Até hoje, menos que métrica, rima, sonoridade, sentido ou imagens, o que me conquista na poesia é o ritmo. E nisso Gonçalves Dias é quase inigualável.
Abaixo, três poemas. Não vou colocá-los completos em razão da extensão, mas deixo os links.
O poema em 10 cantos narra as variações psicológicas (e consequentes variações estéticas do poema) do guerreiro tupi que cai prisioneiro dos Timbiras – a preparação do ritual de seu sacrifício, seu canto de morte em que relata o drama do pai cego, sozinho e perdido na floresta, a desonrosa libertação, o reencontro com o pai, o reconhecimento do pai sobre o que ocorreu, a maldição que este roga ao filho, a reabilitação do herói e a eternização da história. O primeiro trecho abaixo, canto VIII, é da maldição (em negrito as sílabas tônicas que tão bem marcam o ritmo), o segundo, canto X, a lembrança de um velho timbira.
Canto VIII
“Tu choraste em presença da morte?
Na presença de estranhos choraste?
Não descende o cobarde do forte;
Pois choraste, meu filho não és!
Possas tu, descendente maldito
De uma tribo de nobres guerreiros,
Implorando cruéis forasteiros,
Seres presa de vis Aimorés.
“Possas tu, isolado na terra,
Sem arrimo e sem tria vagando,
Rejeitado da morte na guerra,
Rejeitado dos homens na paz,
Ser das gentes o espectro execrado;
Não encontres amor nas mulheres,
Teus amigos, se amigos tiveres,
Tenham alma inconstante e falaz! […]
Canto X
Um velho Timbira, coberto de glória,
Guardou a meria
Do moço guerreiro, do velho Tupi!
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Dizia prudente: – “Meninos, eu vi!
Da parte de lírica amorosa – há quem diga piegas, digo de intenso sentimento e incrível ritmo. Ao que tudo indica, possui motivação autobiográfica. A musa seria Ana Amélia, seu grande amor correspondido, mas não concretizado, cuja família tradicional não permitiria o casamento da filha com o poeta de pai português e mãe cafuza (Dias carregava no sangue a formação do Brasil).
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;
[…]
Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.
Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.
Comovente, o poema de 13 cantos narra um encontro inesperado anos depois do fim do relacionamento do poeta com a Ana Amélia, já casada (mal e obrigada), em Lisboa. O encontro é marcado pelas reticências, pontos e vírgulas, exclamações e suspensões, como a fala engasgada de quem procura entender e justificar a situação, aplacar a culpa que a amada lhe impõe por não ter resistido, a ponto dela lhe virar a face no reencontro.
IX
Que me enganei, ora o vejo;
Nadam-te os olhos em pranto,
Arfa-te o peito, e no entanto
Nem me podes encarar;
Erro foi, mas não foi crime,
Não te esqueci, eu to juro:
Sacrifiquei meu futuro,
Vida e glória por te amar!
 XVI
Dói-te de mim, que t’imploro
Perdão, a teus pés curvado;
Perdão!… de não ter ousado
Viver contente e feliz!
Perdão da minha miséria,
Da dor que me rala o peito,
E se do mal que te hei feito,
Também do mal que me fiz!

Sudoku com poemas

Da série compras por impulso, vi na livraria e comprei o “Sonetos de Shakespeare – faça você mesmo” (Objetiva, 2010, 126 p.).
A proposta é brincar de sudoku, mas com poemas. No sudoku, é preciso contar repetições, atentar para linhas, colunas e quadrados em busca de sequências de números que os resolvam. Pois traduzir poemas tem muito a ver com isso. Procura-se palavras em versos, rimas, métricas e sons até se completar/abandonar o poema. Ao final de um jogo de sudoku ser exercitou sua mente, o que já é válido. Mas fica muito mais divertido se o passatempo resultar em algo que tem sentido e pode ser compartilhado, que tal tentar?
Para começar podemos pegar uma língua de sons e vocabulário mais próximos ao nosso, o espanhol. Essas são as duas primeiras estrofes do Poema dos Dons de Jorge Luis Borges – ponto altíssimo do escritor argentino que remete ao fato dele cego ser designado diretor da Biblioteca Nacional da Argentina:

POEMA DE LOS DONES – Jorge Luis Borges 

Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

Sem me alongar muito, entendo que poesia precisa ter pelo menos alguns dos seguintes elementos: métrica, ritmo, sonoridade, rima e imagem. Tente manter o máximo desses elementos sem se desviar muito do sentido original (ou se desvie, o poema agora também é seu!) e complete seu sudoku. Basta lápis, borracha e papel (mas, claro, pode pedir ajuda para o google translator).
Assim como no jogo japonês, há diversas respostas para o quebra-cabeças. Abaixo deixo algumas traduções, incluindo a minha (é só clicar no mais informações).

POEMA DOS DONS – Josely Vianna Baptista
Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
esta declaração da maestria.
de Deus, que com magnífica ironia
deu-me a um só tempo os livros e a noite.
Da cidade de livros tornou donos
estes olhos sem luz, que só concedem
em ler entre as bibliotecas dos sonhos
insensatos parágrafos que cedem
POEMA DOS DONS – Salomão Sousa
Ninguém derrame a lágrima ou não acoite
esta declaração da sábia mestria
de Deus, que com magnífica ironia,
de uma só vez me deu os livros e a noite.
Deu posse a esta cidade de livros
a olhos deixados sem luz, que só podem,
nas bibliotecas dos sonhos, ler crivos
de insensatos parágrafos que cedem
POEMA DOS DONS – Augusto de Campos
Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.
Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem
POEMA DOS DONS – Alysson Ramos Artuso
Ninguém tome por lágrima ou açoite
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil vezes livros e uma noite.
Desta terra de tomos tornou donos
Os meus olhos sem luz que só podem
Reler nas bibliotecas de meus sonhos

Alguns tolos parágrafos que eclodem