Primeiras linhas

Eu não acho bons começos de livros exatamente essenciais – vou continuar lendo a obra se não achei as primeiras páginas sensacionais. Mas ultimamente li alguns livros com primeiras linhas incríveis e comecei uma espécie de coleção imaginária delas, que resolvi registrar em um lugar mais seguro que a minha memória nada confiável.

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“O drama da vida, ela lhe disse um dia, é que as pessoas sempre querem alguma coisa. O desejo está lá, sempre esteve. As pessoas movem o mundo por ele. Feliz é quem consegue, infeliz quem não consegue. Já o drama da sua vida é que você não quer nada”.

 Não muito – Bolívar Torres (7Letras)

“Quando Ada morreu, as roupas ainda não tinham secado. O elástico das calças continuava úmido, as meias grossas, as camisetas e as toalhas de rosto penduradas do avesso, nada estava pronto. Havia um lenço de molho dentro do balde. Os potes de recicláveis lavados na pia, a cama desfeita, os pacotes de biscoito abertos em cima do sofá – Ada tinha ido embora sem regar as plantas. As coisas da casa prendiam a respiração e esperavam. Desde então, a casa sem Ada é de gavetas vazias”.

 Noites de Alface – Vanessa Barbara (Alfaguara)

“Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder. E então para. Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior do corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo issi enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem. Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de gentlemen’s agreement que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território”.

A Morte do Pai – Karl Ove Knausgard (Companhia das Letras)

“Uma vez me perdi. Tinha seis ou sete anos. Vinha distraído e de repente não vi mais meus pais. Me assustei, mas logo retomei o caminho e cheguei em casa antes deles – continuavam me procurando, desesperados, mas naquela tarde achei que tinham se perdido. Que eu sabia voltar para casa e eles não”.

Formas de voltar para casa – Alejandro Zambra (Cosac Naify)

“Uma vez que cabe a mim, teu narrador, a obrigação de narrar, e a ti, meu leitor, a de ler – se assim te apraz -, faz-se mister, por questões de cortesia, que nos apresentemos. Porém, não sendo possível que eu te conheça, não há sentido que conheças a mim, posto que cá eu ficaria em posição de desvantagem contigo. Permita-me, então, que aqui apresente somente minha intenção, e esta é a de narrar. E, ao fazer tal afirmação, estabeleço o compromisso de que te narrarei somente aquilo que vi; e o que não vi, ouvi; e o que não vi nem ouvi, li. Já aquilo que não vi, ouvi ou li, inventei, pois, se as passagens mais cheias de assombros e maravilhas são todas verídicas, coube às mais banais e cotidianas o fardo de serem todas dictícias, do contrário, como se sabe, a narrativa não anda, e é preciso das verossimilhança aos fatos”.

Quatro Soldados – Samir Machado de Machado (Não Editora)